O AVIÁRIO POLÍTICO

Wednesday, September 09, 2009


NA COMUNICAÇÃO SOCIAL O QUE PARECE É


Mais um artigo do Mário Crespo que não podia deixar de o pôr aqui. Então cá vai:

Não se pode dizer que de Espanha nem boa brisa nem boa Prisa, porque o clima para este monumental acto censório é da exclusiva responsabilidade de José Sócrates.
35 anos depois da ditadura, digam lá o que disserem, não volta a haver o Jornal de Sexta da TVI e os seus responsáveis foram afastados à força.
No fim da legislatura, em plena campanha eleitoral, conseguiram acabar com um bloco noticioso que divulgou peças fundamentais do processo Freeport.
Sem o jornalismo da TVI não se tinha sabido do DVD de Charles Smith, nem do papel de "O Gordo" que é (também) primo de José Sócrates e que a Judiciária fotografou a sair de um balcão do BES com uma mala, depois de uma avultada verba ter sido disponibilizada pelos homens de Londres.
Sem a pressão pública criada pela TVI o DVD não teria sido incluído na investigação da Procuradoria-geral da República porque Cândida Almeida, que coordena o processo, "não quer saber" do seu conteúdo e o Procurador-geral "está farto do Freeport até aos olhos".
Com tais responsáveis pela Acção Penal, só resta à sociedade confiar na denúncia pública garantida pela liberdade de expressão que está agora comprometida com o silenciamento da fonte que mais se distinguiu na divulgação de pormenores importantes.
É preciso ter a consciência de que, provavelmente, sem a TVI, não haveria conclusões do caso. Não as houve durante os anos em que simulacros de investigação e delongas judiciais de tacticismo jurídico-formal garantiram prolongada impunidade aos suspeitos.
A carta fora do baralho manipulador foi a TVI, que semanalmente imprimiu um ritmo noticioso seguido por quase toda a comunicação social em Portugal. Argumenta-se agora que o estilo do noticiário era incómodo. O que tem que se ter em conta é que os temas que tratou são críticos para o país e não há maneira suave de os relatar.
O regime que José Sócrates capturou com uma poderosa máquina de relações públicas tentou tudo para silenciar a incómoda fonte de perturbação que semanalmente denunciou a estranha agenda de despachos do seu Ministério do Ambiente, as singularidades do seu curriculum académico e as peculiaridades dos seus invulgares negócios imobiliários.
Fragilizado pelas denúncias, Sócrates levou o tema ao Congresso do seu partido desferindo um despropositado ataque público aos órgãos de comunicação que o investigam, causando, pelos termos e tom usados, forte embaraço a muitos dos seus camaradas.
Os impropérios de Sócrates lançados frente a convidados estrangeiros no Congresso internacionalizaram a imagem do desrespeito que o Chefe do Governo português tem pela liberdade de expressão.
O caso, pela sua mão, passou de nacional a Ibérico. Em pleno período eleitoral, a Ibérica Prisa, ignorante do significado que para este país independente tem a liberdade de expressão, decidiu eliminar o foco de desconforto e transtorno estratégico do candidato socialista.
É indiferente se agiu por conta própria ou se foi sensível às muitas mensagens de vociferado desagrado que Sócrates foi enviando. Não interessa nada que de Espanha não venha nem boa brisa nem boa Prisa porque a criação do clima para este monumental acto censório é da exclusiva responsabilidade do próprio Sócrates.
É indiferente se a censura o favorece ou prejudica. O importante é ter em mente que, quem actua assim, não pode estar à frente de um país livre. Para Angola, Chile ou Líbia está bem. Para Portugal não serve.

Mário Crespo

Tuesday, August 11, 2009

PACTOS DE SILÊNCIO

Tenho andado bem fugida da minha veia politica e há muito que ando para aqui pôr este texto que me foi enviado por "mail". Sei que já tem algum tempo mas não deixa de estar sempre actualizado, como por exemplo a compra da casa da mãe de Sócrates e como este haverão muitos mais, afinal apesar da longevidade do texto parece que não estará assim tão desactualizado. Não sei quem escreveu este artigo nem em que parte da imprensa saiu. No entanto, não duvido que tenha sido publicado só me falta saber onde e quando. Então cá vai:


Há muito que nutro uma grande admiração por este verdadeiro jornalista


Um 'BRAVO' para a coragem do jornalista Mário Crespo !

Pactos de silêncio No Outono de 1989 conduzi na RTP os debates entre os candidatos a Lisboa. O grande confronto foi PS/PSD. Duas candidaturas notáveis. Jorge Sampaio, secretário-geral, elevou a política autárquica em Portugal a um nível de importância sem precedentes ao declarar-se candidato quando os socialistas viviam um dos seus cíclicos períodos de lutas intestinas. O PSD escolheu Marcelo Rebelo de Sousa. No debate da RTP confrontei-os com a fotocópia de documentos dos arquivos do executivo camarário do CDS de Nuno Abecassis. Um era o acordo entre os promotores de um enorme complexo habitacional na zona da Quinta do Lambert e a Câmara. Estipulava que a Câmara receberia como contrapartida pela cedência dos terrenos um dos prédios com os apartamentos completamento equipados. Era um edifício muito grande, seguramente vinte ou trinta apartamentos, numa zona que aos preços do mercado era (e é) valiosíssima. Outro documento tinha o rol das pessoas a quem a Câmara tinha entregue os apartamentos. Havia advogados, arquitectos, engenheiros, médicos, muitos políticos e jornalistas. Aqui aparecia o nome de personagem proeminente na altura que era chefe de redacção na RTP. A lista discriminava os montantes irrisórios que pagavam pelo arrendamento dos apartamentos topo de gama na Quinta do Lambert. Confrontados com esta prova de ilicitude, os candidatos às autárquicas de 1989 prometeram, todos, pôr fim ao abuso. O desaparecido semanário Tal e Qual foi o único órgão de comunicação que deu seguimento à notícia. Identificou moradores, fotografou o prédio e referiu outras situações de cedência questionável de património camarário a indivíduos que não configuravam nenhum perfil de carência especial. E durante vinte anos não houve consequência desta denúncia pública. O facto de haver jornalistas entre os beneficiários destas dádivas do poder político explica muito do apagamento da notícia nos órgãos de comunicação social, muitos deles na altura colonizados por pessoas cuja primeira credencial era um cartão de filiação partidária. Assim, o bodo aos ricos continuou pelas câmaras de Jorge Sampaio e de João Soares e, pelo que sabemos agora, pelas câmaras de outras forças partidárias. Quem tem estas casas gratuitas (é isso que elas são) é gente poderosa. Há assessores dispersos por várias forças políticas e a vários níveis do Estado, capazes de com uma palavra no momento certo construir ou destruir carreiras. Há jornalistas que com palavras adequadas favoreceram ou omitiram situações de gravidade porque isso era (é) parte da renda cobrada nos apartamentos da Quinta do Lambert e noutros lados. O silêncio foi quebrado agora que os media se multiplicaram e não é possível esconder por mais vinte anos a infâmia das sinecuras. Os prejuízos directos de décadas de venalidade política atingem muitos milhões. Não se pode aceitar que esta comunidade de pedintes influentes se continue a acoitar no argumento de que habita as fracções de património público 'legalmente'. Em essência nada distingue os extorsionistas profissionais dos bairros sociais das Quintas da Fonte dos oportunistas políticos que de suplicância em suplicância chegaram às Quintas do Lambert. São a mesma gente. Só moram em quintas diferentes. Por esse país fora.

Tuesday, November 18, 2008

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Fiquei ontem siderada quando fui à minha antiga escola e verifiquei que lhe tinham mudado o nome, ainda mais espantada fiquei porque não ouvi nem percebi que a imprensa escrita e não escrita tenha pegado neste tema. Acho horrível que ao fim de 40 anos se lembrem de mudar o nome da escola. Se queriam juntar ali outras escolas tudo bem mas o nome com que ela ficou de raíz deveria ter ficado. São as modernices dos nossos novatos governantes. Esquecem-se que também vão para velhos e quando lá chegarem pensarão de outra maneira. Ai estou cá com uma raiva!!! Que saudades da Escola FERREIRA BORGES. Mas que raio para o que lhes deviam de dar. Bom, mas aqui fica todo o processo que foi feito na mudança do nome.

28 de Outubro de 1893 - Fundada a Escola Elementar do Comércio, a funcionar num palacete no largo do Carmo, Palácio de Valadares.
1963 - A já Escola Comercial de Ferreira Borges ocupa o edifício na Rua Jau, construído para o efeito, onde ainda hoje se encontra. O nome de Ferreira Borges foi atribuído à Escola em homenagem a José Ferreira Borges, o autor do Código Comercial Português.
Após o 25 de Abril de 1974 - Com a unificação do ensino, a escola deixou de ser comercial, passando a designar-se por Escola Secundária de Ferreira Borges .
18 de Dezembro de 2001 - Anunciada a proposta de fusão da Escola Secundária de Ferreira Borges com a Escola Secundária Fonseca Benevides, deixando as actuais instalações "livres" (???). Nesta reunião foi pedido às Escolas presentes que apresentassem as suas contra-propostas até 9 de Janeiro de 2002.
8 de Janeiro de 2002 - Em reunião geral da Escola foi aprovada a proposta da Escola, relativamente à Reorganização da Rede Escolar. Nesta proposta foi reafirmado que:
"a) A Escola Secundária de Ferreira Borges está disponível para compartilhar as suas instalações, dentro dos pressupostos contidos nos considerandos acima enunciados, porque daí advirão benefícios para toda a comunidade escolar da zona;
b) A Ferreira Borges não está disposta a abandonar as instalações que para si foram criadas para, muito provavelmente, as ver ocupadas por outra escola. ...Face às razões aduzidas e ao contexto apresentado, a Escola Secundária de Ferreira Borges não abdica do seu direito de permanecer nas instalações que já ocupa há 40 anos. ".
17 de Maio de 2002 - Conferência de Imprensa dada pelo Sr. Ministro da Educação, da qual resultaram diversas interpretações quanto ao futuro da nossa escola, mas nas quais existia sempre ligação à Escola Secundária Rainha Dona Amélia .
20 de Maio de 2002 - Envio do primeiro fax ao Senhor Ministro da Educação, manifestando o nosso desagrado pelo facto de terem sido os órgãos de comunicação social os primeiros a terem conhecimento das alterações à Rede Escolar da AP1 e pedindo para sermos recebidos com carácter de urgência.
21 de Maio de 2002 - Fax enviado pela DREL ao Conselho Executivo da Escola "... foi, por despacho do Sr. Secretário de Estado da Administração Educativa, decidido extinguir as Escolas Secundárias com 3º ciclo Rainha D.Amélia e Ferreira Borges, criando uma nova Escola Secundária Rainha D. Amélia a funcionar nas instalações da Escola Secundária com 3º ciclo Ferreira Borges que absorve o corpo docente e discente das escolas a extinguir... ".
27 de Maio de 2002 - Envio de segundo fax ao Senhor Ministro da Educação com a nossa posição sobre a decisão de ser dado à nova escola o nome duma das extintas, precisamente a que iria mudar de instalações e reforço do pedido para sermos recebidos.
20 de Junho de 2002 - Terceiro fax enviado não só ao Senhor Ministro da Educação, como a várias entidades ligadas à Educação, alertando "Da importância e implicações do nome a atribuir a uma nova escola..." .
1 de Julho de 2002: Despacho do Senhor Secretário de Estado da Administração Educativa, aprovando as linhas mestre e aspectos práticos da criação da nova Escola.
5 de Julho de 2002 - Quarto fax enviado ao Ministério da Educação e DREL, com a nossa posição sobre o despacho anterior e o alerta, mais uma vez, das implicações da supressão de "Ferreira Borges" no nome da nova escola.
15 de Julho de 2002 - Reunião na DREL, com os Órgãos das duas escolas a extinguir - Conselhos Executivos, Assembleias de Escola e Associações de Pais, onde ficaram "clarificados" os aspectos fundamentais da criação da nova escola, a regular por portaria a sair brevemente.
Após esta reunião, podemos concluir que:
Independentemente de se considerar ser esta a melhor solução, é a que "temos" e com a qual teremos de aprender a conviver.
Existe, da parte da grande maioria dos intervenientes das duas escolas a extinguir, a intenção de se impenharem para que o novo ano lectivo funcione "normalmente", pondo sempre em primeiro lugar os principais interessados - todos os alunos.
Com excepção desta Associação, a maioria dos envolvidos não considera que o nome seja um impedimento à plena integração dos alunos na nova escola, sendo este tido como um facto consumado.
11 de Setembro de 2002 - Publicação no DR 210 Série 1B da Portaria 1256/2002 que extingue as Escolas Secundárias Ferreira Borges e Rainha D. Amélia e cria a nova Escola Secundária Rainha D. Amélia a funcionar nas instalações da extinta Ferreira Borges.


A Associação de Pais da Escola Secundária de Ferreira Borges

Tuesday, November 11, 2008

O BONECO DO MULTIBANCO





Há qualquer coisa de estranho no país.
Qualquer coisa que bate no ritmo errado.
Qualquer coisa que falha.
Eu sabia que havia qualquer coisa que falhava, que morria, mas faltava-me os olhos para confirmar.
Agora já sei:


Partiu.
Faleceu há cerca de um mês o tão divertido boneco do Multibanco.
E recrutaram este que é absolutamente ridículo.
Fizeram com o outro o mesmo que fizeram com a Picolé na Praça da Alegria: um empurrão para o fim.
Um encosto para o nada.
Havia qualquer coisa de triunfalmente alegre quando o outro boneco nos pedia para marcarmos o código pessoal.
E nós confiávamos nele o que não confiamos em muitos amigos.
Os quatro dígitos que ele recebia e selava.
Fica ainda a maneira como nos entreolhava para introduzirmos o cartão.
Tudo isso era de uma finura misturada com saber viver que deixava poucas dúvidas: ele estava ali, naquela caixinha, mais do que feliz por se lambuzar com os nossos cartões.
Dia após dia.
Nós brutos, apressados, irritados, indiferentes.
E ele lá, sereno, a pedir-nos o que já sabíamos.
E tudo com um par de luvas brancas, para que não haja cá confusões.
Como manda a lei.
Como manda a sapatilha.
Como manda tudo.
Tudo feito com a força de uma vida.
Ficarei para sempre com a imagem dele desolado, com o coração feito em restos de nada, com os braços dele feitos braços do céu, a suplicar:
"dirija-se ao multibanco mais próximo".
Dirija-se ao multibanco mais próximo.
Para se dizer isto é preciso carregar uma honestidade esmagadora.

Ali nasceu, ali viveu, e ali acabou por morrer.
Mas cedo demais, parece-me.
Cedo demais.
Deu lugar a um mais novo, é certo, mas infinitamente menos discreto a pedir o código pessoal e patético na parte do "retire o seu dinheiro".
É o progresso, dizem uns.
É o fim, digo eu.

Descansa em paz


P.S. Reparem uma última vez na pintarola (não há que ter medo da palavra
pintarola) que este jovem tinha ao pedir para marcarmos o código pessoal com a descontracção de uma perna cruzada.
Classe.

(Autor desconhecido)

Sunday, October 26, 2008

A BANCA NACIONALIZOU O GOVERNO

Quando, no passado domingo, o Ministério das Finanças anunciou que o Governo vai prestar uma garantia de 20 mil milhões de euros aos bancos até ao fim do ano, respirei de alívio. Em tempos de gravíssima crise mundial, devemos ajudar quem mais precisa. E se há alguém que precisa de ajuda são os banqueiros. De acordo com notícias de Agosto deste ano, Portugal foi o país da Zona Euro em que as margens de lucro dos bancos mais aumentaram desde o início da crise. Segundo notícias de Agosto de 2007, os lucros dos quatro maiores bancos privados atingiram 1,137 mil milhões de euros, só no primeiro semestre desse ano, o que representava um aumento de 23% relativamente aos lucros dos mesmos bancos em igual período do ano anterior. Como é que esta gente estava a conseguir fazer face à crise sem a ajuda do Estado é, para mim, um mistério.
A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.
Tendo em conta que, depois de anos de lucros colossais, a banca precisa de ajuda, há quem receie que os bancos voltem a não saber gerir este dinheiro garantido pelo Estado. Mas eu sei que as instituições bancárias aprenderam a sua lição e vão aplicar ajuizadamente a ajuda do Governo. Tenho a certeza de que os bancos vão usar pelo menos parte desse dinheiro para devolver aos clientes aqueles arredondamentos que foram fazendo indevidamente no crédito à habitação, por exemplo, e que ascendem a vários milhares de euros no final de cada empréstimo. Essa será, sem dúvida nenhuma, uma prioridade. Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso, dou mesmo.

Ricardo Araújo Pereira

Saturday, October 18, 2008

"MIGALHÃES"

Lá vem pelo Avelar
O filho do Zé João
Vem do centro escolar
Cansado de palmilhar
A caminho da povoação

Não há médico na aldeia
E a antiga escola fechou
Não tem carne para a ceia
Nem petróleo para a candeia
Porque o dinheiro acabou

O seu pai foi para França
Trabalhar na construção
E a mãe desta criança
Trabalha na vizinhança
Lavando pratos e chão

Mas o puto vem contente
Com o Migalhães na mão
E passa por toda a gente
Em alegria aparente
De quem já sabe a lição

Um senhor muito invulgar
Que chegou com mais senhores
Veio para visitar
O novo centro escolar
E dar os computadores

E lá vem o Joãozinho
No seu contínuo vaivém
Calcorreando o caminho
Desesperando sozinho
À espera da sua mãe

Neste país de papões
A troco de dois vinténs
Agravam-se as disfunções
O rico ganha milhões
E o pobre, "Migalhães"!

Luís Costa

Monday, July 14, 2008

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Enviaram-me este texto por mail. Apetecia-me pô-lo aqui sem comentários, mas é muito difícil. Não bastava a crise que o País atravessa e ainda por acima agravam as contas públicas. É mesmo no sentido lacto da coisa, dizer que vivemos na República das Bananas. O triste é que é só para alguns porque os outros chucham no dedo. Oram leiam:
Era uma vez, um senhor chamado JORGE VIEGAS VASCONCELOS, que era presidente de uma coisa chamada ERSE, ou seja, Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, organismo que praticamente ninguém conhece e, dos que conhecem, poucos devem saber para o que serve. Mas o que sabemos é que o senhor Vasconcelos pediu a demissão do seu cargo porque, segundo consta, queria que os aumentos da electricidade ainda fossem maiores.
Ora, quando alguém se demite do seu emprego, fá-lo por sua conta e risco, não lhe sendo devidos, pela entidade empregadora, quaisquer reparos, subsídios ou outros quaisquer benefícios. Porém, com o senhor VASCONCELOS não foi assim. Na verdade, ele VAI PARA CASA com 12 MIL EUROS POR MêS - ou seja, 2.400 CONTOS - durante o máximo de dois anos, até encontrar um novo emprego.
Aqui, quem me ouve ou lê pergunta, ligeiramente confuso ou perplexo: «Mas você não disse que o senhor VASCONCELOS se despediu?». E eu respondo: «Pois disse. Ele demitiu-se, isto é, despediu-se por vontade própria!». E você volta a questionar-me: «Então, porque fica o homem a receber os tais 2.400 contos por mês, durante dois anos? Qual é, neste país, o trabalhador que se despede e fica a receber seja o que for?».
Se fizermos esta pergunta ao ministério da Economia, ele responderá, como já respondeu, que «o regime aplicado aos membros do conselho de administração da ERSE foi aprovado pela própria ERSE». E que, «de acordo com artigo 28 dos Estatutos da ERSE, os membros do conselho de administração estão sujeitos ao estatuto do gestor público em tudo o que não resultar desses estatutos». Ou seja: sempre que os estatutos da ERSE foram mais vantajosos para os seus gestores, o estatuto de gestor público não se aplica.
Dizendo ainda melhor: o senhor VASCONCELOS (que era presidente da ERSE desde a sua fundação) e os seus amigos do conselho de administração, apesar de terem o estatuto de gestores públicos, criaram um esquema ainda mais vantajoso para si próprios, como seja, por exemplo, ficarem com um ordenado milionário quando resolverem demitir-se dos seus cargos. Com a bênção avalizadora, é claro, dos nossos excelsos governantes.
Trata-se, obviamente, de um escândalo, de uma imoralidade sem limites, de uma afronta a milhões de portugueses que sobrevivem com ordenados baixíssimos e subsídios de desemprego miseráveis. Trata-se, em suma, de um desenfreado, abusivo e desavergonhado abocanhar do erário público.
Mas voltemos à nossa história. O senhor VASCONCELOS recebia 18 MIL EUROS MENSAIS, mais subsídio de férias, subsídio de Natal e ajudas de custo. 18 mil euros seriam MAIS DE 3.600 CONTOS, ou seja, mais de 120 CONTOS POR DIA, sem incluir os subsídios de férias e Natal e ajudas de custo.
Aqui, uma pergunta se impõe: Afinal, o que é - e para que serve - a ERSE? A missão da ERSE consiste em fazer cumprir as disposições legislativas para o sector energético. E pergunta você, que não é burro: «Mas para fazer cumprir a lei não bastam os governos, os tribunais, a polícia, etc.?».
Parece que não. A coisa funciona assim: após receber uma reclamação, a ERSE intervém através da mediação e da tentativa de conciliação das partes envolvidas. Antes, o consumidor tem de reclamar junto do prestador de serviço. Ou seja, a ERSE não serve para nada. Ou serve apenas para gastar somas astronómicas com os seus administradores. Aliás, antes da questão dos aumentos da electricidade, quem é que sabia que existia uma coisa chamada ERSE? Até quando o povo português, cumprindo o seu papel de pachorrento bovino, aguentará tão pesada canga? E tão descarado gozo? Politicas à parte estou em crer que perante esta e outras, só falta mesmo manifestarmos a nossa total indignação.